sábado, 8 de dezembro de 2018

A CORDA BAMBA


Ego equilibrista, olha em riste na tentativa de não falhar
Pé ante pé, concentra e comunica a alma em linha reta
Quando tenta, num ato de fé,
O tendão gasto e cansado da intuição não sobrecarregar

O caminhante só alcança a superfície perfeita para ampará-lo
Quando percorreu e desfrutou o caminho,
Sem caminho o caminhante se desfaz,
A superfície perde a utilidade e a perfeição

O jogo, porque as relações sociais, por diferenciadas que pareçam
Muito se assemelham a jogos, e digo no bom sentido,
Precisam ser incorporados por cada um dos participantes, atores sociais
Não tanto como o pesar da regra,
Mas como um reconhecimento da necessidade de parâmetros, linguagens,
 E simbolismos comuns

O jogo que eu jogo, pode ser elaborado em segundos
O funcionamento se dá ao longo de sua adesão
Não se vence e nem se pode ser melhor que ninguém
Mas se a vontade convergir num acaso de comunhão
A vontade e verdade desenham espaços no além.

É simples, também confuso
A mira, a concentração e a eficácia de um equilibrista,
Não me cobro mais que isso,
A persistência de andar em caminhos tortuosos, por vezes mal iluminados
Se rebate na qualidade do esforço e na inspiração da re – atividade

Não vou fazer um discurso repetitivo
A palavra me cansa no caminho, entressílabas
O equilibrista desceu da corda e a guardou com raiva e carinho
Já não tinha mais vontade de estende-la sob o sol

Se sentiu como semente tardia, das árvores que vem depois
Daquelas que gostam de sombra e ver o cerne crescer
Entre tantos outros troncos encontrar seu lugar e função
Deixar o vento passar, sem estremecer nem cair.

domingo, 14 de outubro de 2018

O grito

Eu não quero materializar meus silêncios
Minha forma de me oprimir como um reflexo do infinito de ignorâncias ao redor de mim
Sim, parece ego e ísta, mas é só doente e mais um
Dor que doe numa carne repetindo tantas dores humanas
Solitárias, exclusivas na multidão

Por que persistir?
Porque resistir é como respirar, mas ás vezes é bom e ás vezes dói
Eu e tantos seres
Tantos seres e eu

Estou conformada da necessidade do ajuste
Na matemática da vida, quem não se adapta fica para trás
E eu não me dou a possibilidade
Continuo, desanimada, mas eu creio

Creio em nuvens, em árvores, nos cachorros e besouros
E sou extremamente grata pela sua existência

sábado, 9 de junho de 2018

Casca

Liberdade é pendurar roupa no varal sem pressa,
Debaixo do sol no inverno,
É deixar o filho demorar pra escovar os dentes,
Ter o tempo certo pra se trocar...

Ser livre é ter a sensação de ver começar e terminar
Projetos, relacionamentos, vidas e seguir
Sabendo que a direção e as pressões são variáveis
Mas ter a consciência de que manter-se de pé é dever.

Quero ter o compromisso com a liberdade,
De andar sabendo quem sou, quem ando me fazendo
Num novo laço, equilibrado com a força,
De existir com vontade, num namoro sóbrio com a verdade

Livre é aquele que tempo de plantar,
Semear novas relações sociais e ambientais,
 E ainda que tão castrado e moldado, saber a hora
De romper a dormência e quebrar a forma.








segunda-feira, 28 de maio de 2018

Aos caminhoneiros de 2018

Eu sei quem vai na frente,
ainda que na minha tola ignorância, desconheça quem está por trás
Sei que os caminhoneiros do Brasil, com determinação
Estão fazendo o que a maioria dos brasileiros não faz

Imagina o disparate da expressão
Da minha, tua inércia, frente ao acaso realista
Reclamar como de costume, num desejo implícito de falsa ordem
Statos quo, mera vontade de manutenção

Despertai-vos e uni-vos,
Porque o universo é diverso, mas ainda é um
Há que se levantar com alma, desse sono profundo,
Resgatar a vida, chacoalhar com energia
Tantos corpos moribundos

Vamos driblar as manobras,
Quebrar mil vezes o dualismo
Onde só existe a cruz e crucificado
O branco, o preto, falta de nuances
O olhar perdido que só busca o certo e o errado

O que se põe a prova não é julgamento, nem abstenção
Nem no puritanismo mais profundo,
O que se mostra imprescindível, em meio ao caos desses tempos,
Ainda não fere seu individualismo, só cobra consciência
 Mas, veja,  é só uma moeda lógica,
Ainda nem é compaixão.

sábado, 5 de maio de 2018

Súplica



Eu preciso (como já precisei) da tua presença física
O que não se explica ficou, como sentido ao broto inexplicável
A falta de palavras, ao transcendental
Preciso da força que avistei, movendo montanhas materiais
Irrigando a veia do essencial

Não importa tanto vaidade
Querer reconhecimento distante do que não se tem
Eu digo e não tenho pressa,
Mas me desespero na demora de teus passos

Eu preciso tardiamente, te ver afoito com teus planos
A tua atenção concentrada no fruto e no futuro
Ver tua terra prover nutrientes e substrato
Na profundeza do teu solo, que amparo dê ao raso

Não permita que tua memória te traia,
Que torne o supérfluo uma memória do agradável
Que misture cores numa meta dispersa e colorida
Num oceano azul e sem rumo, que só caminhe na rua do viável

Tudo, tudo, tudo é exemplo vida
Teus valores estarão expostos, dispostos
Colocados pelos teus gostos, tuas rimas
Seus esforços relativos, serão lembrados e filtrados
Nas providências da atenção,
Consciente de que a memória é uma cina.



sexta-feira, 4 de maio de 2018

a você

A você que não pode quebrar as pedras
Pra ver as pontes construídas,
Que não pode sentir a regressão do ritmo dos passos
Na beira da subida

A você que nunca sentiu o pesar da incerteza
Em tantos caminhos áridos e fugidios
Que não se arrebentou em preces
Pra satisfazer seus alívios

Você que arruma as malas nas portas do repetitivo
E diz sonhar planos, paisagens
Despertando em vôos altos
Miragens do mesmo desatino

A você dedico meus minutos vagos
O que restou, o que não quero ser
A você, indivíduo ser humano raro
Dedico a possibilidade de me desfazer




sábado, 28 de abril de 2018

Meu desassossego


Hoje o meu desassossego é meu
Porque já não escancaro meus dentes pra colher miséria
Porque vi nos meus inúmeros sins, formas de me negar
Porque me identifico, mas não sou

O equilíbrio cobrou e eu me dei a responder
Dei adeus aos deuses na tentativa de me reintegrar
Abracei o medo até ele transmutar
Ri das minhas loucuras até me ater a mim

Parei!
Quis provar na carne o delírio da compaixão
Até ver esfacelados pelo chão
Tantos pedaços de mim, eu sei

Hoje, o meu desassossego é meu,
Minhas dores indizíveis, as plantas do jardim que não pude regar
Os segundos, minutos, horas, eu
Tempo de passos largos que corre, ventando, cobrando o peso do ar.

sábado, 31 de março de 2018

Eu queria dizer


Quero te escrever com minhas linhas tortas, retas, inexatas
Fotografar com erros de uma lente fosca, o que não consigo explicar
Quero lembrar do teu abraço balançado que me incomodava
Às vezes apertado, desesperado, folgado, silenciado
Brabo, da dor de se dar sem se ter nada

Quero lembrar do teu riso cheio e bobo, flutuando sem tempo
Teus olhos buscando tantas respostas que eu não posso te dar
Penso nos minutos cheios, em tantas horas à toa
Lembro que queria dizer mais do mesmo, só por ter tempo de dizer

Lembro da intensidade das verdades devaneadas
Dos sons, das letras, notas criadas
Teu cabelo na minha mão, mundo de ponta cabeça
A dor acertada no meio do meu peito
Afiada a cortar meu coração

Eu sinto
Eu sinto muito
Nossa, ou a minha insistência
Retrato do impossível que não agrada
Eu sinto muito
Meu quadro era outro

Lá tudo podia ser, mas não foi
Eu encontrava um lugar, você também
Na falta de espaço, criamos o além
Tudo podia ser, mas não era
Das dimensões, nos fizemos reféns

Vivemos o desagrado, como fosse desrespeito
A disparidade dos tempos, a incongruência das vontades,
O ressabio das horas, o disparate transbordado de tantos hábitos não contidos.

Mas eu lembro sim, do calor do teu colo
Do sono, do vento, de tudo que há em vão
Nossos desencontros férteis, de brigas injustas
Da memória que não retenho,
Da vida que prefiro recriar

Lembro de conhecer meu apreço ao caos,
De reerguer paredes aos pedaços,
De te ver criar e recriar nossa história
Da vontade do avesso, do avesso, do avesso

Eu me lembro sentir sua dor
Tua perna, teus calcanhares
De ficar em pé e esquecer do resto
Nos teus olhos a dor de vida, a dor de morte

Minha briga, minha fé, meu batuque, minha oferenda
Teu medo, respeito escaldado
Águas que movem, rodopiam meus moinhos

Eu lembro da segurança do teu amor
Das histórias que te prendiam, da tua atenção perfeita
Do seu cansaço, do seu suor, do seu cheiro
Lembro de me sentir importante e ganhar de presente
Minha própria vida

Lembro de delicadas brutalidades,
Da vontade de palavras, do espaço necessário do respirar,
Diferenças indissolúveis,
Do retorno a minha essência, num reconhecimento da minha revolta
Aceitação do que é inaceitável de dentro e fora de mim
A experiência em carne da relatividade
Na crença dedicada de que tudo pode ser









Água

Esse quebra cabeça de peças grandes desencaixadas
Não sei montar, não sei. Eu não sei!
Na vontade de refazer o quadro, me perdi
Tuas cores não eram as minhas
Tinha de reconstruir o que nunca vi

Sinto muito, não consegui.
Eu vejo, tá lá.
Tudo existe muito,
Mas tatear me desaba as bordas
Desanda o miolo, desfaz o nó que preciso ter.

E eu sou o que pra você?
Teu lugar tá pronto, tua toca feita
O espaço não me conforta,
Mas meu corpo implora, o calor
O peso da mão, teu carinho vão

Tenho sede. Ah, eu tenho sede!,
Da água que corre, que esbarra e segue.
Sede da água que sobe rio,  inunda a terra,
Come barranco, que desfaz pedra e traz alívio.


Desabrigo


Acostumada a cuidados extremos, o que será dela?
Mudança?
O que se espera dela?
Melhora?
O que ela faz?
Dança!

Ela dança viva, convulsiva,
Sempre prestes a nascer,
Ela é vida produtiva,
Desviada do problema,
Um contorno inexato
Folha nova a se retorcer

A mágica que fita
No segundo inesperado
Na sequência do silêncio
Há de estardalhar seu riso,
Seu pranto, um desatino

Não se engane,
Ela é viva e embaraçada
Mas é precisa,
Rodopia no descompasso,
Dobra a certeza no abraço
Na via reta da tua rima.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Casa

Minha casa sem tijolos,
Paredes de vento,
Argamassa moldada,
Nas mãos do meus apegos.

Eu, me desfaço em palavras
Tenho tentado ser tudo,
O avessso, do avesso,
do meu pensamento.

Mas  a realidade é,
E me comprime,
Me aperta e dispersa
Em sentimentos intensos.

Vontade de tudo, ambição de nada
Eu jogo, brinco, finjo não ver
Castelos  tão imponenentes
Construídos em carta marcadas.

Ah, vida bonita, cadê você?
Te tateio no escuro
No claro, finjo não ver.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Esse dia

O projeto do projeto do sucesso
A saída, a porta, a entrada
A dor pulsante das vezes
A dor latente de sempre

Para. Respira.
Deixa doer observando a vida que escorre para o ralo.
Saúde com fé a dor que te desperta,
Só ela te traz o presente.

Não tem volta.
Acaso não fora avisado?
Desprevenido e ensimesmado!
Não notara suas escolhas a transformar planos em areia?

Age como o escultor, entalha
Arranca de si o que nunca te fez parte
Depois de ter se livrado das lascas
Se encontra um sob o formão
Sólido, inteiro, obra de arte.