sábado, 15 de junho de 2019

Deserto


Eu não quero rezar minha sorte como quem se rende numa homenagem ao azar,
Há uma essência que se entrega ao novo, como numa criança que se gesta
Ainda que a pureza lhe tenha sido roubada, mesmo antes de nascer

Quero pintar meu interior com cores e ares que não pude experimentar
Há um amarelo no horizonte, cujo sabor ladeia meus lábios
Uma secura que desafia a minha,
Há infindas estrelas que me gritam num céu que pulso ver

Eu respiro estradas... Nesses caminhos as justiças não são exatas
São buracos invisíveis, que só se se sente ao se passar por eles
Tortuosas imagens de percursos divididos, falsos oásis e alívios vividos

Há um deserto onde a dor e a felicidade costumam se abraçar, sem arrogância
É quase como se uma, bem conhecesse a outra, fossem íntimas num horizonte abissal
Como se o trajeto fosse uma obra de arte viva, em eterna reconstrução
E todos feridos de areia pudessem desfrutar desse instante impermanente.

Ah, eu uma vez ou tantas pensei me conhecer, mas entrego mais uma parte alheia
Que deixa expor o meu amor e desdém, nada pessoal,
Costumo encher a boca dos outros como faço com a minha
Com tudo eu que posso dar e com o resto de que não posso me abster.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Registros da minha análise

Não é difícil fazer ou ser invadido pelo luto,
Não é difícil se projetar na atenção que se queria ter,
Não é difícil dar motivos para a realidade nos frustrar.

É difícil encontrar um lugarzinho pra sentar, no vazio.
É difícil processar a matéria prima com delicadeza.
É difícil não decompor suas partes, num processo digestivo.
É difícil reanimar encontros e situações sem vida.

O tempo passa ventando a possibilidade de me sacudir.
Você abraça - sem querer ou saber -, me liberta.
Mal projeta, como eu, vendado, que deixa escapar a voz
Que desata nós e nos desperta.


Cansei faz tempo de um  monte de coisa.
Nem sei se já tive paciência, segui direcionada, só.
Re - elaborando o sentimento e as palavras, ia dizer que "só" era sozinha - como se fosse adjetivo de apenas - e me dei por mim que era só,
Porque era a única relação ou situação que eu me limitava a viver.

Só, poderia significar a vontade da minha alma ou mente querer dizer:  apenas, unicamente,
Mas a memória esbarrou no sentimento e eu me dei a lembrar que era no sentido de sozinha
Tive a imaginação de que tudo podia ser construído
Espontaneamente, na beira dum caminho.... que nem existisse, mas que estava e continuaria por um tempo sendo criado.

Quando tudo vai embora,
Quando o som, o assunto, a vivência, a consideração escorrem
Que nem mãos com tantos dedos de apego conseguem agarrar,
Deixo-os ir, amando e vivenciando suas limitações.
Chore, não como projeto, mas por falta de opção.
Chore.

Desalmada


Você mira e me olha, mas não me vê.
És uma cobra cega, branca pálida e amarelada,
A serpentear feito larva,
Se alimentando de carne alheia substrato de quem se julga ser.

Você não é viva, mas humanamente vil.
É corrosiva à rotina, arrebatadora de lares,
Cianureto travestido de sociabilidade,
A mentira materializada na voz e no breu.

És uma bomba relógio pronta e armada,
No tic tac em que seduzes os segundos,
Tomando conta de tempos e subjetividades,
Histórias, amores, rebeldias e lares que não são teus.

Por seres assim tão falsa,
Em épocas em que o parecer supera o ser,
Entras no jogo camuflada, como peça que faltasse,
Sequestra energia vital e se disfarça
Faz da fé um templo ateu.

Ah! Eu não te desafio.
Tua fortaleza é navalha que pica a carne e rói a alma,
Reunindo erros derivados de fragilidades e ambições de atos viciados,
Destruindo potencialidades da vontade de se ser ético e moral.

Minha palavra solta e a rima desarticulada,
Minha esperança estranha e tão pouco sustentada,
Não desafiam seu poder, nem sustentam justiça
Mas imploram redenção.

Quando nela, tanto faz frente a quem nos pomos de joelhos, não é?
Re-den-ção – pare, leia, procure e pesquise.
Eu não vou, e digo:  -Nos seus joelhos! E o resto tanto faz.
Mas ponha-se assim, no chão.

É só nele que as lágrimas secas ou exageradas encontram a terra e imploram perdão,
É só na dor alheia que se encontra espelho e reflexo para compreensão,
É se propondo a pensar e sentir como outro,
que a humanidade vivencia o milagre da compaixão.
Dói.

Autodestrutiva e imoral:
Meu nome não é tua casa,
Minha vida é paralela a tua morada.
Se em atalhos fomos apresentadas,
Minha cabeça e minhas mãos sacodem,
O adeus é assim.