domingo, 14 de dezembro de 2014

Palavra pedra

Palavra pedra no meu caminho
Receio fazer mau uso
No risco, silencio
Guardo, não digo

Recebo - penso - de peito aberto
Nesse "tudo novo" me vêem sensações de "tudo de novo"
A verdade é que sou arredia
Cautela, cautela, cautela

As histórias que não dizemos dizem muito
As palavras que não tocamos, não queremos que nos violem
É difícil admitir, mas incomoda
Ideias palavras que retumbam na mente

Fico perguntando a mim mesma
Com que liberdade se ouve aquilo que não se ousa dizer?
Cuidado com as palavras
Podem ser traiçoeiras

Sentir é mais seguro, mesmo que passageiro
Não tenho medo de viver
De olhar nos olhos da realidade
Sem fantasias do ego

Não encontro motivo para não ser autêntica
Falar assim, deixando que qualquer parte do eu se manifeste
É exercício de solidão
As coisas se dão antes que se pense em dizê-las
Não diga

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Entre ares

Meus "entre ares" surgem como o mar na ressaca,
Pensamentos perdidos que caçam buracos para entrar na minha cabeça, e entram.
As vezes doloridos, as vezes revoltos...
Entre ares discretos, que permeiam o dia disfarçados e  a noite me seduzem para depois me fazer acordar em soluços...
Irrompendo do inconsciente para o consciente, fazendo a vida parecer mentira e o sonho parecer verdade...
Como se vida quisesse dizer algo que não consigo ler,
Ou quisesse mesmo me fazer doer logo no início do dia.
Aperto.





segunda-feira, 19 de maio de 2014

Receita

Só esteja presente no momento agora,
Queime com incenso o ranso dos dias passados
Ponha água para ferver
Deixe que todas as expectativas venham a tona...
Quando as borbulhas subirem, derrame a água logo de uma vez sobre elas

Treine muito bem a sua mente, já que o resto não pode ser treinado
Faça uma conserva de carência e guarde na geladeira
Condense sua memória emocional (não deixe ocupar mais que meia xícara de café):
Se for boa, se delicie por alguns instantes
Se for ruim, engula rápido (o amargor deve também sumir em alguns instantes)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Ácida

Por um momento me ocorreu uma dúvida: seria o tempo o pai da verdade, ou seria ele seu assassino?
Colocando de outra maneira: um dia o tempo há de nos revelar uma grande verdade ou várias delas, desmentindo todas ou quase todas as nossas verdades perecíveis ou seria ele o responsável por nos aniquilar a verdade da mente, fazendo-nos perceber que ela sequer um instante chegou a existir?



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A cura

Quem não há de procurar remédio para os seus males
Ainda que no frasco do veneno, desfrute a paz de poucas horas
E nas madrugadas ou manhãs, vague como cão sem dono, de estômago vazio?

Não conheço quem não os tenha:
Remédios para as horas...
Não conheço quem não confunda o seu efeito e a cura

A paz é mesmo um dragão arredio que procuramos domar
Deixá-lo solto, é tê-lo distante
Conquistá-lo é quase sempre efêmero

A mente, mesmo após o choque, inventa meios de se repetir
Os vícios são todos paralelos
Justificam sempre, modos de se diferenciar

Os que se acham curados são, de fato, os mais remediados
Os que se justificam repetem verdades que não enchem barriga
Adictos assumidos não usam a verdade nem como cura, nem como vício

domingo, 8 de dezembro de 2013

O corpo

Era o corpo a criação
A dádiva em carne viva que de outro corpo se nutria
Era a caixa onde se punha toda dor, toda alegria
Como um presente que não se dá,
Como passado que já não existia

E o tempo entremeava as sensações
Paradoxando a existência na quente e fria materialidade
Tudo era passageiro, fazendo da fugacidade o remédio do medo

O corpo era sim o recinto do abençoado e do malogrado
Era veículo, era objeto
Laboratório vivo das experiências que não se sonha, nem se imagina

E via a energia a animar fantoche
Um movimento sutil, um pedido, um pensamento
Casca vazia caída no chão

A culpa de quem não tinha doía mais
Era o fracasso, era o sucesso
o começo e o desfecho


domingo, 24 de novembro de 2013

das coisas

Das coisas da vida, as que mais gosto são aquelas que brotam do vazio
Um silêncio pleno que emerge da turbulência
Uma flor que abre espaço no meio das pedrinhas duras

Chego até a pensar se é por elas que existo
Nelas que me sinto parte
Ponte do fluxo da energia criativa

Ah essas coisinhas tão precisas e preciosas
Nos caminhos tortuosos vão criando sentido
Roubando da mente a certeza
Trazendo com o cansaço, o alívio

Coisas que só nascem da entrega
De integrar-se ao que simplesmente há
Ser parte e todo

Deixar que seja
Que escape, estravaze
Que fuja das rédeas
Que drible o controle