sábado, 15 de junho de 2019

Deserto


Eu não quero rezar minha sorte como quem se rende numa homenagem ao azar,
Há uma essência que se entrega ao novo, como numa criança que se gesta
Ainda que a pureza lhe tenha sido roubada, mesmo antes de nascer

Quero pintar meu interior com cores e ares que não pude experimentar
Há um amarelo no horizonte, cujo sabor ladeia meus lábios
Uma secura que desafia a minha,
Há infindas estrelas que me gritam num céu que pulso ver

Eu respiro estradas... Nesses caminhos as justiças não são exatas
São buracos invisíveis, que só se se sente ao se passar por eles
Tortuosas imagens de percursos divididos, falsos oásis e alívios vividos

Há um deserto onde a dor e a felicidade costumam se abraçar, sem arrogância
É quase como se uma, bem conhecesse a outra, fossem íntimas num horizonte abissal
Como se o trajeto fosse uma obra de arte viva, em eterna reconstrução
E todos feridos de areia pudessem desfrutar desse instante impermanente.

Ah, eu uma vez ou tantas pensei me conhecer, mas entrego mais uma parte alheia
Que deixa expor o meu amor e desdém, nada pessoal,
Costumo encher a boca dos outros como faço com a minha
Com tudo eu que posso dar e com o resto de que não posso me abster.

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