sexta-feira, 4 de maio de 2018

a você

A você que não pode quebrar as pedras
Pra ver as pontes construídas,
Que não pode sentir a regressão do ritmo dos passos
Na beira da subida

A você que nunca sentiu o pesar da incerteza
Em tantos caminhos áridos e fugidios
Que não se arrebentou em preces
Pra satisfazer seus alívios

Você que arruma as malas nas portas do repetitivo
E diz sonhar planos, paisagens
Despertando em vôos altos
Miragens do mesmo desatino

A você dedico meus minutos vagos
O que restou, o que não quero ser
A você, indivíduo ser humano raro
Dedico a possibilidade de me desfazer




sábado, 28 de abril de 2018

Meu desassossego


Hoje o meu desassossego é meu
Porque já não escancaro meus dentes pra colher miséria
Porque vi nos meus inúmeros sins, formas de me negar
Porque me identifico, mas não sou

O equilíbrio cobrou e eu me dei a responder
Dei adeus aos deuses na tentativa de me reintegrar
Abracei o medo até ele transmutar
Ri das minhas loucuras até me ater a mim

Parei!
Quis provar na carne o delírio da compaixão
Até ver esfacelados pelo chão
Tantos pedaços de mim, eu sei

Hoje, o meu desassossego é meu,
Minhas dores indizíveis, as plantas do jardim que não pude regar
Os segundos, minutos, horas, eu
Tempo de passos largos que corre, ventando, cobrando o peso do ar.

sábado, 31 de março de 2018

Eu queria dizer


Quero te escrever com minhas linhas tortas, retas, inexatas
Fotografar com erros de uma lente fosca, o que não consigo explicar
Quero lembrar do teu abraço balançado que me incomodava
Às vezes apertado, desesperado, folgado, silenciado
Brabo, da dor de se dar sem se ter nada

Quero lembrar do teu riso cheio e bobo, flutuando sem tempo
Teus olhos buscando tantas respostas que eu não posso te dar
Penso nos minutos cheios, em tantas horas à toa
Lembro que queria dizer mais do mesmo, só por ter tempo de dizer

Lembro da intensidade das verdades devaneadas
Dos sons, das letras, notas criadas
Teu cabelo na minha mão, mundo de ponta cabeça
A dor acertada no meio do meu peito
Afiada a cortar meu coração

Eu sinto
Eu sinto muito
Nossa, ou a minha insistência
Retrato do impossível que não agrada
Eu sinto muito
Meu quadro era outro

Lá tudo podia ser, mas não foi
Eu encontrava um lugar, você também
Na falta de espaço, criamos o além
Tudo podia ser, mas não era
Das dimensões, nos fizemos reféns

Vivemos o desagrado, como fosse desrespeito
A disparidade dos tempos, a incongruência das vontades,
O ressabio das horas, o disparate transbordado de tantos hábitos não contidos.

Mas eu lembro sim, do calor do teu colo
Do sono, do vento, de tudo que há em vão
Nossos desencontros férteis, de brigas injustas
Da memória que não retenho,
Da vida que prefiro recriar

Lembro de conhecer meu apreço ao caos,
De reerguer paredes aos pedaços,
De te ver criar e recriar nossa história
Da vontade do avesso, do avesso, do avesso

Eu me lembro sentir sua dor
Tua perna, teus calcanhares
De ficar em pé e esquecer do resto
Nos teus olhos a dor de vida, a dor de morte

Minha briga, minha fé, meu batuque, minha oferenda
Teu medo, respeito escaldado
Águas que movem, rodopiam meus moinhos

Eu lembro da segurança do teu amor
Das histórias que te prendiam, da tua atenção perfeita
Do seu cansaço, do seu suor, do seu cheiro
Lembro de me sentir importante e ganhar de presente
Minha própria vida

Lembro de delicadas brutalidades,
Da vontade de palavras, do espaço necessário do respirar,
Diferenças indissolúveis,
Do retorno a minha essência, num reconhecimento da minha revolta
Aceitação do que é inaceitável de dentro e fora de mim
A experiência em carne da relatividade
Na crença dedicada de que tudo pode ser









Água

Esse quebra cabeça de peças grandes desencaixadas
Não sei montar, não sei. Eu não sei!
Na vontade de refazer o quadro, me perdi
Tuas cores não eram as minhas
Tinha de reconstruir o que nunca vi

Sinto muito, não consegui.
Eu vejo, tá lá.
Tudo existe muito,
Mas tatear me desaba as bordas
Desanda o miolo, desfaz o nó que preciso ter.

E eu sou o que pra você?
Teu lugar tá pronto, tua toca feita
O espaço não me conforta,
Mas meu corpo implora, o calor
O peso da mão, teu carinho vão

Tenho sede. Ah, eu tenho sede!,
Da água que corre, que esbarra e segue.
Sede da água que sobe rio,  inunda a terra,
Come barranco, que desfaz pedra e traz alívio.


Desabrigo


Acostumada a cuidados extremos, o que será dela?
Mudança?
O que se espera dela?
Melhora?
O que ela faz?
Dança!

Ela dança viva, convulsiva,
Sempre prestes a nascer,
Ela é vida produtiva,
Desviada do problema,
Um contorno inexato
Folha nova a se retorcer

A mágica que fita
No segundo inesperado
Na sequência do silêncio
Há de estardalhar seu riso,
Seu pranto, um desatino

Não se engane,
Ela é viva e embaraçada
Mas é precisa,
Rodopia no descompasso,
Dobra a certeza no abraço
Na via reta da tua rima.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Casa

Minha casa sem tijolos,
Paredes de vento,
Argamassa moldada,
Nas mãos do meus apegos.

Eu, me desfaço em palavras
Tenho tentado ser tudo,
O avessso, do avesso,
do meu pensamento.

Mas  a realidade é,
E me comprime,
Me aperta e dispersa
Em sentimentos intensos.

Vontade de tudo, ambição de nada
Eu jogo, brinco, finjo não ver
Castelos  tão imponenentes
Construídos em carta marcadas.

Ah, vida bonita, cadê você?
Te tateio no escuro
No claro, finjo não ver.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Esse dia

O projeto do projeto do sucesso
A saída, a porta, a entrada
A dor pulsante das vezes
A dor latente de sempre

Para. Respira.
Deixa doer observando a vida que escorre para o ralo.
Saúde com fé a dor que te desperta,
Só ela te traz o presente.

Não tem volta.
Acaso não fora avisado?
Desprevenido e ensimesmado!
Não notara suas escolhas a transformar planos em areia?

Age como o escultor, entalha
Arranca de si o que nunca te fez parte
Depois de ter se livrado das lascas
Se encontra um sob o formão
Sólido, inteiro, obra de arte.