terça-feira, 11 de outubro de 2016

Eu tenho sido tantos

Eu que vivo cumprimentando o caos e arrumando o caminho para que ele passe ileso.
Eu que vivo adiando compromissos sérios e reclamando daqueles que não comparecem,
Ah... eu tenho sido tantos...
Eu tenho mentido uma mentira fosca, que não sustenta nem o meu riso.
Eu vivo me esquecendo dos potes que me abastecem,
E me lembrando de pratos de pranto tão planos que não aguentam minhas lágrimas.

Eu que tenho sido displicente e displicentemente arranjo razão pros meus caminhos,
Eu que sempre fui inclinada a ações que não são minhas, me encontro tão torta.
Acostumada a dizer que a gente cria nossa fortuna,
Desaprendi a praticar os ensinos



terça-feira, 26 de abril de 2016

Quando não fui

É importante se jogar... Eu me jogo!
Também é um instinto de sobrevivência,
reconhecer um obstáculo momentaneamente intransponível,
E entre ir e se deixar ficar,
Ver que existe um lapso, uma luz, um vazio, um piscar

Eu pisco.
E tudo, no fundo, se decide assim, num piscar.
Das muitas coisas que não sei, não atrevo a dever pra mim mesma.
O sal no olho arde.

Quando miro a distância de aqui até lá,
Eu sei o quanto ela, pra mim, vale.
Preço nenhum é mais alto do que a dívida que implanto na minha cabeça,
Ninguém emprestaria a quantia em couro, carne viva.

Assim... eu lamento...
Sou só e tudo isso.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Cor do esquecimento

É cinza
A mistura do branco no preto
É resto
Madeira queimada, nuvem que esconde o firmamento

Cinza estreito
A cor do beco que me sinto dentro
É pó
Que escorre depois do temporal no cimento

É chumbo
Bala pesada no meio do peito
É agulha
A ponta escondida a alfinetar o pensamento

É salgado
Mar em ressaca que invade meu leito
É prédio
Edifício abandonado na praça  do centro

É fumaça
O céu tensionado pedindo silêncio
É chão
Um olhar desbotado mirado no descontentamento




domingo, 14 de dezembro de 2014

Palavra pedra

Palavra pedra no meu caminho
Receio fazer mau uso
No risco, silencio
Guardo, não digo

Recebo - penso - de peito aberto
Nesse "tudo novo" me vêem sensações de "tudo de novo"
A verdade é que sou arredia
Cautela, cautela, cautela

As histórias que não dizemos dizem muito
As palavras que não tocamos, não queremos que nos violem
É difícil admitir, mas incomoda
Ideias palavras que retumbam na mente

Fico perguntando a mim mesma
Com que liberdade se ouve aquilo que não se ousa dizer?
Cuidado com as palavras
Podem ser traiçoeiras

Sentir é mais seguro, mesmo que passageiro
Não tenho medo de viver
De olhar nos olhos da realidade
Sem fantasias do ego

Não encontro motivo para não ser autêntica
Falar assim, deixando que qualquer parte do eu se manifeste
É exercício de solidão
As coisas se dão antes que se pense em dizê-las
Não diga

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Entre ares

Meus "entre ares" surgem como o mar na ressaca,
Pensamentos perdidos que caçam buracos para entrar na minha cabeça, e entram.
As vezes doloridos, as vezes revoltos...
Entre ares discretos, que permeiam o dia disfarçados e  a noite me seduzem para depois me fazer acordar em soluços...
Irrompendo do inconsciente para o consciente, fazendo a vida parecer mentira e o sonho parecer verdade...
Como se vida quisesse dizer algo que não consigo ler,
Ou quisesse mesmo me fazer doer logo no início do dia.
Aperto.





segunda-feira, 19 de maio de 2014

Receita

Só esteja presente no momento agora,
Queime com incenso o ranso dos dias passados
Ponha água para ferver
Deixe que todas as expectativas venham a tona...
Quando as borbulhas subirem, derrame a água logo de uma vez sobre elas

Treine muito bem a sua mente, já que o resto não pode ser treinado
Faça uma conserva de carência e guarde na geladeira
Condense sua memória emocional (não deixe ocupar mais que meia xícara de café):
Se for boa, se delicie por alguns instantes
Se for ruim, engula rápido (o amargor deve também sumir em alguns instantes)